Os Mineiros Nervosos da Espanha e Suas Bazucas Caseiras

Por Henry Langston

Por mais de um mês, os mineiros da província de Astúrias, norte da Espanha, estão numa greve que frequentemente irrompe em luta armada entre eles e a polícia. As razões por trás da greve? O novo governo conservador espanhol tem tentando gradualmente implantar políticas para tirar o meio de subsistência dos caras. Eles cortaram os subsídios da mineração sabendo que sem isso as minas terão que fechar. O governo também quebrou um acordo que ajudaria os mineiros que ficassem sem emprego. Como os homens que trabalham nas minas não conhecem outro jeito de sustentar suas famílias, eles não estão levando essas atitudes numa boa.

Sendo assim, acabei passando o dia 4 de julho na correria com algumas centenas de mineiros que ficaram na mina de Sotón nas Astúrias (nos anos 90, milhares de pessoas trabalhavam nesses poços). Eles usaram barricadas em chamas e lançadores de foguete caseiros para afastar os policiais da tropa de choque enviados para as montanhas para reprimir essa roda de pogo renegada.

Os mineiros reagiram à decisão do governo de destruir suas vidas bloqueando regularmente as rodovias e ferrovias que vão do centro de Astúrias até a capital, Madri. É uma batalha que vem sendo travada em loop há mais de um mês e é uma coisa bem estranha, já que enquanto os mineiros lutam por seu futuro, as autoridades encaram a questão simplesmente como uma disputa de tráfego (apesar disso já ter custado um olho para um dos policiais).

Existe a tentação de se comparar os confrontos com as greves de mineiros da Inglaterra, mas a realidade é muito diferente. Os confrontos podem até ter relação com os poços de mineração, mas por mais desordeira que fosse a turma de Arthur Scargill nos anos 80, eles nunca atacaram a polícia ou fura greves traiçoeiros com fogos de artifício, estilingues ou lançadores de foguetes improvisados com pedaços de canos velhos.

Os mineiros têm uma variedade de bazucas — as mais fortes usam uma carga explosiva para disparar enormes bolas esquisitas de golfe, mas só em veículos. Se eles atirassem uma dessas nos policiais, logo estariam no tribunal sendo julgados por homicídio. Apesar da barreira da linguagem, entendi que se a situação se deteriorar mais os mineiros podem considerar a possibilidade de voltar suas armas mais poderosas diretamente para a polícia. Mas eles realmente esperam não ter que chegar a esse ponto.

Na terça-feira, conversei com alguns dos mineiros e suas famílias. Muitos estavam me dizendo que ficariam em greve pelo tempo que fosse necessário quando uma barricada foi anunciada para o dia seguinte na mina Sotón em Carrocera. Em Astúrias, barricadas são uma ocorrência quase diária, mas geralmente não são planejadas com antecedência. Recentemente tornou-se imperativo surpreender os policiais, já que os mineiros suspeitam que seus telefones estejam grampeados e que policiais disfarçados andam frequentando as reuniões e protestos para coletar informação.

Tinham me dito para ficar pronto na porta do meu hotel às 4h20 da quarta, e que meus guias do dia anterior iriam me buscar. Nenhum deles falava inglês e meu tradutor estava ocupado. Só sei que logo depois eu estava sendo levado para um carro estacionado perto do meu e depois me disseram que tínhamos que trocar de carro. Não fazia a menor ideia do motivo, talvez para despistar alguém que estivesse nos seguindo? Bom, fiz isso mesmo assim. Dois minutos depois o carro parou, me disseram para sair e um dos mineiros pegou uma serra elétrica no porta-malas.

Isso não ajudou muito a compostura do meu intestino, mas acontece que eles não queriam me despedaçar num monte de membros ensanguentados, eles só queriam cortar algumas árvores e bloquear a estrada. Ufa!

Voltamos à mina, um grande grupo de mineiros já tinha chegado, derrubado mais árvores e as jogado de uma passarela que conectava um dos lados do vale à mina. Eles acrescentaram pneus e gasolina à pilha de escombros no meio da rodovia abaixo e puseram fogo, o que tem seus riscos, mas que ajudou os mineiros a atingir seu objetivo de criar um enorme congestionamento.

Para impedir que os policiais usassem a passarela, os mineiros criaram uma barreira de estacas. Na frente do portão eles escreveram “Proibida a entrada de bastardos”, o que claramente visava os policiais e não qualquer pessoa passeando com seu cachorro logo pela manhã.

Na entrada da mina, outra árvore foi derrubada. E só para afastar os policiais um tiquinho mais, eles também colocaram fogo nessa.

Enquanto isso, na passarela, o fogo na rodovia estava um pouco baixo, então os mineiros começaram a alimentá-lo com árvores inteiras. E é impossível não parecer fodão fazendo uma coisa dessas.

Três horas se passaram sem nenhum policial à vista. Enquanto os mineiros conversavam entre si e conferiam as defesas, comecei a pensar que as autoridades não iam aparecer mesmo. Me enganei:

Eu estava indo para a barricada na entrada da mina, quando, do nada, vans da tropa de choque estacionaram do outro lado do rio e começaram a disparar rajadas de gás lacrimogêneo nos mineiros, que responderam com seus lançadores de foguete.

O ar ficou cheio de gás lacrimogêneo e fumaça dos fogos de artifício (os mineiros usam quase 10 mil reais disso num único dia), mas fui esperto o suficiente para comprar uma máscara de gás e óculos de proteção quando cheguei. Infelizmente, nem todos os mineiros tinham sido tão precavidos, e foram obrigados a recuar por causa do gás.

Os policiais estavam atacando principalmente pela frente, mas também mandaram vários veículos para a parte traseira da mina e cobriram a área com gás lacrimogêneo. Os mineiros responderam com pedras, estilingues e até começaram a jogar as capsulas de gás lacrimogêneo de volta.

Com as grossas nuvens de fumaça, as grandes explosões frequentes e toda a gritaria das pessoas através da paisagem industrial, aquilo parecia uma reencenação da Batalha de Stalingrado, só que não com armas de brinquedo, porque ninguém ali era besta.

O gás eventualmente forçou os mineiros a voltar, enquanto eles recuavam, outros mineiros estabeleciam posições de tiro para cobrir seus camaradas:

A polícia, coberta pela cortina de fumaça, tinha conseguido retirar uma das barricadas na estrada traseira da mina, tornando possível para eles flanquear os mineiros e atacar pela frente. Um grande contingente de mineiros se moveu para defender a entrada de seu local de trabalho:

Então a polícia atacou a passarela, tentando retirar os mineiros que a estavam defendendo. De alguma maneira eles me confundiram com um mineiro e resolveram atirar uma saraivada de balas de borracha na minha direção. Valeu, caras!

Os mineiros lentamente começaram a ficar sem foguetes para seus lançadores e às vezes só sobrava como opção atirar pedras e tentar atrair a polícia para campo aberto.

Mas a polícia parecia confortável disparando de trás da casinha de cachorro do guarda da mina.

Nesse ponto, as barricadas estavam em operação por quase cinco horas e os mineiros estavam ficando cansados. Ninguém pode culpar esse cara por fazer uma pausa, né?

Mas a pausa não duraria muito, com os policiais usando mais gás lacrimogêneo para dispersar os mineiros que jogavam pedras. Mais uma vez, outros mineiros que ainda tinham alguma munição os cobriram.

O cara de boné azul era um dos meus guias. Um dia antes, meu tradutor disse que se eu queria ação, devia grudar nele. Então enquanto estava tentando sair dali, ele estava bem no meio da coisa toda. Como você pode ver, ele é um puta atirador com o lançador de foguetes. Eu o apelidei de “Juan Rambo”.

Essa fera do gatilho tinha disparado balas de borracha o dia inteiro. Essas balas de borracha não são do tipo comum — em vez de disparar projéteis que parecem com balas normais, isso aí foi projetado para disparar balas de borracha que quicam, e quanto mais quicam mais forte é o impacto final. Mas não é uma arma muito precisa, não vi ninguém ser atingido por uma dessas durante o dia todo.

Nesse ponto, os mineiros tinham ficado quase completamente sem munição, então recuaram ainda mais para dentro da mina, fora do alcance dos guardas. A polícia se recusa a entrar nas minas — aquele cara que mencionei antes, o que perdeu o olho, fez isso, perseguiu os mineiros para dentro do poço. Tive sorte de ser convidado para a grande torre de onde é possível observar todo o campo de batalha. De lá de cima, algum mineiro pode ocasionalmente atirar um parafuso com um estilingue para lembrar os policiais de ficarem longe.

Conforme as coisas se acalmaram, os policiais escoltaram um caminhão de bombeiros para apagar o fogo e mover as toras, mas como você pode ver no vídeo acima, os mineiros tiveram outra ideia. Eles dispararam dois foguetes e os bombeiros recuaram.

Conforme a batalha se alastrava, a barricada continuava no meio da rodovia, causando um enorme congestionamento durante a hora do rush. Em certo momento vi um dos mineiros tentar desmobilizar carros e veículos pesados roubando as chaves, ou arrancando elas da ignição, para adicionar mais bloqueios à rodovia. Nesse caso, o motorista não deixou barato e deu ré no carro a toda velocidade.

Depois dos últimos foguetes do dia, a polícia se cansou e simplesmente foi embora. Daqui de baixo, você poderia facilmente confundir a luta com um jogo. Nenhum dos lados quer realmente machucar o outro — se um policial fosse morto, isso prejudicaria a causa dos mineiros, e se um mineiro fosse morto, eles teriam um mártir, agravando a situação no futuro. Ao mesmo tempo, no entanto, os dois lados precisam mostrar um para o outro quem é que manda.

Com a necessidade de ajuda econômica eminente e um desemprego de 25%, esses são tempos voláteis para a Espanha. Essa greve só acrescenta mais incerteza ao futuro — mas, por enquanto, os mineiros não podem se preocupar com o futuro do país, já que seu próprio destino, bem como daquele que dependem deles, também é misterioso.

Fonte: http://www.vice.com/pt_br/read/os-mineiros-nervosos-da-espanha-e-suas-bazucas-caseiras

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