Tá vendo aquela calçada ali seu moço? Escrevi meu poema lá

sonhos
Muitas pessoas afirmam que tentar passar uma mensagem sem se importar com os meios é um crime.

Argumentam isso toda vez que invadimos casas ou qualquer outro espaço privado para fazermos nossos Terrorismos Poéticos. Concordaria com esses argumentos se não existissem tantos out-doors poluindo nosso campo de visão.
Se for assim, então socar propaganda goela baixo também é crime. Uma vez definido isso começamos então a nos entender.

Partindo desse ponto de vista, o que a Prefeitura de Curitiba fez, ao privatizar os pontos de ônibus, é crime.
Crime contra a Imaginação Pública, entupindo a cidade de propaganda. Os pontos agora possuem um enorme e luminoso painel publicitário, que além da poluição visual, ainda atrapalha a passagem de pedestres. Não adianta,
pedestre sempre se fode. Na kitinete dos Delinqüentes, aquele antro de inconformados, a indignação quanto à isso foi grande.
– É muita sacanagem, ponto de ônibus é um lugar público – Vinícius é o mais indignado.
– Ainda se fossem informações úteis…
– É, um mapa da cidade ou alguma coisa do tipo.
– Mas não, é só telefones celulares, concessionárias
de veículos e etc.
Agora uma pergunta, que é mais terrorista, nós que invadimos casas pra expor nossos quadros ou eles que invadem nosso cotidiano pra nos convencer de mentiras, induzir-nos a falsas necessidades?
Óbvio, chegamos à conclusão que são eles, pois ganham dinheiro com isso. Perto deles invadir casas não é nada. Jean começou a contar que as principais técnicas de propaganda usadas hoje em dia foram criadas e testadas
pelos nazistas.
– Disso ninguém fala.

Concluímos que nosso próximo ataque deveria ser em relação à isso, retomada do espaço urbano, sabotagem publicitária, enfim, mais uma ação de Terrorismo Poético.

Vinicius parecia ser o mais inspirado.

– Se você analizar bem, as cidades estão organizadas de modo a nos condicionar a pensar de um certo modo, a fazermos somente certas coisas e nos comportarmos de uma certa maneira.

– Tudo bem, muito bonito esse discurso, mas e daí?

– Vamos bolar algo, injetar uns vírus nesse sistema
condicionante.

Ficamos nessa uma cara, viajando nas possibilidades, porém com mil críticas e nada prático e concreto para fazermos. Jean e Fabio quase fundiram os cérebros
pensando em algo. Nessas horas parece que o descaso resolve. Sérgio, que não estava nem aí pra bagaça, foi quem trouxe a solução. Logo ele, que ainda estava curtindo o sucesso de sua idéia concretizada, o cara que sumiu pela
privada.

Mas não curtiu que o cara se chamasse Jesus Cristo.

– Muito clichê.

Mas tudo bem, agora são águas passadas e nada nos
impede de reutilizarmos a idéia outra vez, sem equívocos.

– Quero escrever poemas.

– Ué, escreve, ninguém está te impedindo.

– É, escreve. – A galera não perdoa, é sarcástica
mesmo.

– Mas eu queria eternizá-los

– Ih! Lá vem discurso…

Foi uma coisa absurda. O que tipo de idéia demente que, na boa, não existe, só mesmo sainda da cabeça delirante de um artista plástico sem o que fazer. Saca só a do cara:

– A gente cimenta uma calçada, vestidos de funcionários da prefeitura, joga cimento por tudo, eu escrevo os poemas em baixo relevo e depois deixamos tudo coberto por uma lona preta. Local interditado, uma placas,
tão ligados?

Todos rimos, rimos não, gargalhamos. É o fim da picada! Onde fomos parar? Claro que uma idéia dessas não podia passar batida. No ato pensamos na mãe do Fábio, que é costureira e já tinha feito os trajes de padre do dia em que
abençoamos o banco, pra providenciar os macacões necessários para pôr em prática o plano de Sérgio Augusto.

Roupas de garis da prefeitura, mais cones e aquelas tiras listadas que os caras usam pra isolar a área. Fora cimento, areia, pá, cimento e o escambau.
Um idéia, como diria Nelson Rodrigues: dificilzinha, mas extraordinária. Uma idéia que nos seduziu devagarinho, feito conversa de boteco. Jean e Fabio se encarregaram da parte civil. Massa de cimento, areia, ferramentas e a
logística, entenda-se transporte da tralha toda.

Eu e o resto do pessoal cuidamos das roupas, placas e demais
apetrechos.

Fizemos tudo no fim de semana. E estava fazendo um frio desumano em Curitiba, sem sol e com um vento fudido. Vinícius e Marilia, os românticos da hora, saíram
juntos pra escolher as calçadas. Mais uma vez optamos por um bairro classe média, pois a burguesia não merece tal prêmio.

A parte da mãe do Fábio até que foi fácil, afinal trata-se de uma profissional da costura, foda mesmo foi pintar o logotipo da prefeitura nos macacões. Ainda bem que Sergio deu o sábio toque de fazermos dois a mais, para o caso de
cagada. Ferramos exatamente com dois,

Deus é pai não é padrasto.

Jean e Fábio conseguiram o material de pedreiro e
uma pick-up do trampo do Jean.

– Aluguei eles de que precisávamos fazer a mudança
da kitinete.

– E precisamos mesmo, essa porra tá pequena.

Marcamos a ação pra Terça-feira à tardinha, afinal os funcionários da prefeitura só trabalham de dia e não queríamos que a obra ficasse um dia inteiro com o cimento fresco dando sopa. Algum curioso poderia meter o bedelho e
ferrar com tudo.

À noite as chances de isso ocorrer são menores. Pra mim e pra Jean, que trampamos, foi necessário enrolarmos nossos respectivos chefes pra sair
mais cedo.

Fomos todos juntos, Agachados & Felizes na carroceria da pick-up, com Jean de motorista paunocuzeando a três por quatro fazendo curvas bruscas
pra ferrar com a gente.

Na porta do carro: a logomarca da prefeitura improvisada. Só que ela ficou tão horrível que era só dar uma olhadinha com mais atenção e você se ligaria
que se tratava de uma palhaçada. Jean então encostou pra que descêssemos com o material e foi estacionar longe do local do crime.

Eu e Vinícius colocamos os cones, as faixas e as placas: “Homens Trabalhando” e “Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para embelezar a sua cidade”. Fábio e Jean abraçaram a função de pedreiros.

A argamassa já tínhamos deixado pronta pra facilitar as coisas.
Esparramaram pelo chão e fizeram a “planagem”, não sei se esse é o termo correto. Sérgio ficou só olhando, com um ar insuportavelmente superior.

– Trabalhem seus manés, aos artistas só cabe o trabalho estético.
– Cala a boca!!!

Nesse meio tempo passou uma senhora com uns
setenta e não sei quantos anos e doze pães numa sacola,
estava voltando de uma padaria.

– Ah, vão ajeitar a calçada? Já era em tempo, está
toda quebrada.

– A senhora vai gostar, isso podemos garantir. –

Vinícius, dando uma de cavalheiro.

– Vão ajeitar a rua inteira?

– Gostaríamos. Gostaríamos muito, mas infelizmente
hoje só vai dar pra ajeitar essa.

– É, mas a senhora vai gostar.

Seguiu pra sua casa com um sorriso no rosto e nós ficamos “poetando”, também com sorrisos no rosto. A parte do cimento até que foi rápida, Sérgio que se amarrou pra escrever o poema, fez uma embromação do caralho.

Não queria dizer o que estava escrevendo e nem deixou ninguém vê-lo escrever.

Por fim ergueu a lona um pouco e nos deixou vislumbrar a obra:

“Os meus sonhos afogavam as minhas tristezas, mas as minhas tristezas aprenderam a nadar.”

Ficou perfeito, o cara ainda jogou umas tintas e o resultado ficou psicodélico em todos os seus aspectos.

Recobrimos com a lona e sorrimos satisfeitos. Foi fácil, muito fácil e ainda por cima sobrou um montão de cimento.

Quando vimos o quanto tinha sobrado olhamos uns para os
outros.

– Não podemos desperdiçar tudo isso. – Fábio, pensativo.

– Vocês viram que não foi difícil, o povo nem
desconfiou de nada.

– Poderíamos sacanear um bairro burguês.

– Bora, então.

Fabio encasquetou que queria cimentar a calçada diante da casa em que tinha mandado seu primeiro poema com estilingue, naquele que foi um de nossos primeiros ataques. A autoconfiança é algo perigoso, mas como era eu
quem estava falando ultimamente que contar com a sorte é o primeiro passo para conquistá-la, acabei topando.

Subimos todos em cima da pick-up a partimos pro segundo tempo de nossa intervenção. Jean conduziu a “viatura” até o Jardim Social e mais uma vez estacionou pra que descemos com o material.

Colocamos os cones e outros itens e Fábio imediatamente começou a espalhar o cimento. Desta vez não estávamos tão tranqüilos. Sérgio olhava
nervoso para os lados.

– Olha galera, acho isso precipitado, sei que vocês já tem uma certa experiência, mas acho que essa porra não vai dar certo. Espero vocês naquela lanchonete.
– Vai seu cagão.

– Ele não deixa de Ter razão, apura aí com essa merda. – Eu e Vinícius também estávamos cabreiros.

Fabio terminou de aplainar o cimento e na hora em que estava escrevendo saiu um senhor de dentro da casa.

Pela sua cara, não era muito simpático, parecia invocado.

Provavelmente vacinado contra vandalismo desde o dia em
que recebeu um poema através de sua vidraça quebrada.

Fabio enfiou sua cabeça sob a lona preta e ficou escrevendo enquanto Vinícius ficou dando explicações.

– O que vocês estão fazendo?

– Estamos corrigindo umas imperfeições da calçada.

– Imperfeições? Ninguém aqui reclamou nada pra
prefeitura.

Imediatamente sacamos que aquilo não tinha como terminar bem. Pisquei o olho pra Jean e fiz um gesto discreto em direção aonde o carro estava estacionado. Jean saiu fora e ficou dentro do carro enquanto vini seguiu
discutindo com o morador.

– Fique tranqüilo senhor.

– Vocês são mesmo funcionários da prefeitura?

Tem algum documento de identificação?

Realmente, tiozinho esperto, se ligou que alguma coisa estava errada. Fiz um sinal pra que Jean viesse com o carro. Estacionou e jogamos tudo sobre a carroceria. Fabio tinha terminado sua frase que nem chegamos a ver.

– Estamos indo, concluímos nosso serviço.

– Esperem, quero ver os documentos de vocês.
Saímos literalmente correndo, fugindo.

Uma vez todos em cima do carro Jean acelerou e saímos cantando
pneu. Ainda bem que Jean tinha improvisado uma placa
falsa.

– O que você escreveu, Fábio?

– “Toda propriedade é um roubo” – A mesma frase
de sempre.

Olhamos pra trás e ainda vimos o morador misturando o cimento, completamente indignado. Não deve Ter gostado da frase. Rimos pra caralho e paramos num boteco pra comemorarmos. Da próxima vez, precisamos
tomar mais cuidado.

Fonte: Manual da Delinquência Juvenil  – Vol. 01

Anúncios
Etiquetado

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: