De todos os fogos o fogo

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O crime contra a Imaginação Pública cometido pela Prefeitura Municipal de Curitiba voltou nessa
semana a ser assunto entre os delinqüentes. Começaram a instalar as malditas propagandas luminosas no ponto
de ônibus da kitnete. Os filhos da puta privatizaram os pontos de ônibus.
Agora você chega na janela e o negócio ta lá, impondo-se no escuro da noite. A Sabotagem Publicitária
acabou voltando à nossa pauta de negociações. Fábio demonstrou ser o mais obstinado de todos.

– Aquela viagem de cimentar a calçada foi Intervenção Urbana, não Sabotagem Publicitária.
– Ah, mas foi massa.
– Eu sei, mas nós temos que atacar é esses abusos como o ali de fora.
Jean e Vinícius não estavam nem ai pra conversa, só davam risadas e azaravam.
– Tem que tacar pedras nessas porras!
– Fuder com tudo! Meter fogo.
Sérgio está concluindo mais uma série de trabalhos artísticos, os primeiros de sua fase na
delinqüência. Dá pra ver que mudou muito o estilo. Ultimamente ele anda completamente envolvido com o
processo criativo. Entusiasmado mesmo.
– E não tá nada pronto, só estará pronto quando tudo estiver no seu lugar.
– Que lugar?
– O mundo. A vida. As pessoas.
– Não viaja…

Por fim Jean e Vinícius acabaram se interessando pelo assunto e começaram a tramar seriamente
alguma coisa. Quer dizer, o mais sério possível tratando-se de nós. Jean anda lendo o Clube da Luta do Chuck
Palahniuk e tendo uns planos incendiários.

– Queria experimentar aquelas misturas caseiras, tipo gasolina com coca ligth.
– E será que funciona?
– Pois é! Eu queria testar a parada.

Conversa vai e conversa vem e dos pontos de ônibus privatizados acabou-se chegando ao velho e bom
plano de botar fogo em algum out-door. Antigamente o cagaço sempre vencia, só que agora estamos
irremediavelmente viciados em cagaços.

As idéias logo começaram a brotar.
– Agente joga gasolina. Chegamos por trás do out-door. Com toda a calma do mundo. Escalamos e
vamos derramando gasolina, até encharcar.

Fábio parecia confiante e metódico, era dele principalmente o sonho de queimar um out-door.
– Pode crê! Litros e litros de gasolina.
– Só! Na frente e atrás.
– Nossa o negócio vai queimar pra caraaaaalho!

Quem acabou dando o toque de mestre no plano acabou sendo o Sérgio. Efeitos pirotécnicos ilegais.
Uma coisa de louco, um absurdo.
– A gente arma uma fileira de fogos de artificio por trás do out-door, na hora que a parada tiver
pegando fogo, soltamos os fogos.

Uma idéia fantástica. Fantasticamente arriscada.
– Não dá véio, bem na hora de fugir vai ter uma zoada do inferno?
– Culhones, meu filho! Culhones – Sérgio Augusto com uma machíçe surpreendente.
– Não viaja, o negócio é arriscado.
-Temos que pensar num jeito…

Como somos um bando de inconseqüentes, fomos logo providenciando material sem ter bolado um
plano de fulga decente. Tivemos que investir um troco legal que mesmo repartido em cinco, ainda vai fazer com
que fiquemos duros por uns quantos dias. O mais caro foram os fogos de artifício.
O out-door vítima foi escolhido pelos especialistas em alvos Jean e Fábio. Por motivos óbvios não
posso dizer onde, mas era um lugar manero. Não digo que tinha muita visibilidade e que seria visto por milhares
de pessoas, mas era limpeza pra executar e pelo menos aparentemente, limpeza pra fugir.
Quinta-feira em Curitiba fez um dia esplendoroso, céu azul, coisa rara, interpretamos isso como um
sinal. Passamos o dia ligando uns para os outros e dizendo: É hoje! Tem que ser hoje!
Nos encontramos todos na kitnete e aguardamos com uma paciência dos diabos o tempo passar pra
chegar uma hora adequada pra ação. Chegou a meia- noite vazamos. Jean, Vinícius & Fábio com as mochilas
contendo o material.

Levamos gasolina pura e um pouco de mistura que o Jean fez com coca ligth. No ônibus ele ia
explicando como que o negócio funcionava.

– A gasolina queima fácil, só que pra ser um explosivo ela tem que queimar rápido, de uma vez só, aí
sim vira um explosivo.
O viado falava alto, o povo do ônibus todo ouvindo.
– Pra queimar rápido precisa de oxigênio. Os refrigerantes dietéticos possuem uma substância que
quando esquenta libera oxigênio. Sacaram?
Então encarou todo mundo que tava olhando pra ele, fez uma careta e gritou:
– Buuuum!
Descemos do ônibus nos partindo de dar risadas. Descemos um pouco longe do local pra ir
desbaratinando. Foi no caminho que bolamos o plano de fuga.
– Vamos todos juntos montar a parafernália toda e depois saem todos e fica só um pra botar fogo. –
Fábio foi quem tomou a voz.

– É! É uma boa.
– Um só é bem mais fácil de fugir. Os outros esperam num lugar seguro.
– Tá mas e quem fica?
– Eu é claro! Ô pessoal, é uma causa antiga, quase um sonho pessoal.
– Tá certo…
Pulamos o muro e andamos todos no escuro em meio a vegetação. Nada de Lanternas & nada de
Pressa. Foda-se que a madrugada fosse alta & que talvez Ninguém visse. Um espetáculo destes, pra nós
mesmos, já estaria louco de bom.
Logo chegamos na parte de trás do out-door. Eu e Jean escalamos a estrutura enquanto os outros
montaram sentinela e ficaram alcançando o combustível. Sérgio ficou montando o esquema dos fogos de
artifício, apesar de ter sido idéia sua, estava completamente cagado de medo.
– Vamos apurar logo com essa merda.
– Cala a boca e trabalha.

A porra da estrutura do out-door tava podre. Um pedaço de madeira quebrou e Jean quase caiu. Vini e
Fábio alcançavam a gasolina obstinadamente.
– Ponha mais! Ponha mais!
Então levei o maior susto dos últimos duzentos mil anos. Do nada, surgiram duas crianças gritando. O
susto foi tão grande que pisei em falso, um pedaço de madeira quebrou e despenquei de uma altura de uns quatro
metros. Foi um negocio do caralho, o chão parecia que nunca chegava.
Quem diabos eram aqueles meninos? Que caralho eles estavam fazendo ali? Vinícius conversou com
eles e saquem o grau da coinscidência:
Tinha uma casinha abandonada, minúscula, tipo a única peça de alvenaria de uma casa que muito
antigamente existia por ali, no meio do mato, e eles, que eram meninos de rua, dormiam dentro. Mal estava
coberta e eles dormiam ali. Puta que o pariu! Definitivamente, o mapa não é o território.
Sem sombra de dúvidas, nossa ação ferraria com o dormitório dos meninos. No calor dos
acontecimentos Vini os convidou para dormirem na kitnete.

– Beleza!

– É, a gente dorme lá então.

Os meninos acabaram saindo-se ótimos ajudantes e em poucos minutos encharcamos o painel
publicitário de gasolina. Só tivemos que esperar o lezera do Sérgio terminar seu serviço.
Sair fora e deixar somente Fábio acionar as bombas foi de partir o coração. Sérgio terminou, mostrou
& saiu correndo com os meninos. Queria fugir dali mesmo. Eu e Vinícius saímos de cabeça baixa, nos
esgueirando por entre os arbustos. Lentamente, pois estava com a adrena a mil por causa do susto dos meninos.
Jean ficou discutindo com Fábio, queria ficar de qualquer jeito.

Sérgio sumiu enquanto eu e Vini nos escoramos na sombra de um muro pra esperar Jean. Passou um
tempão com eles discutindo e a gente vendo e não ouvindo nada até que fizeram sinal pra gente se mandar. Foi
quando nos ligamos que eles acabaram resolvendo mandar o plano de fuga à merda e tacaram fogo na bagaça.
Assistimos tudo colados no muro num ponto perdido entre Aterrorizados & Maravilhados.
Fábio ateou fogo no out-door e na hora em que as chamas subiram as ganhas Jean acendeu os fogos.
No momento senti como se já pudesse morrer, como se já tivesse vendo tudo que bastasse. Nossa fogueira
queimou mesmo, queimou pra cacete, o clarão iluminou todo o matagal que até então estava nas trevas. O show
pirotécnico dos fogos de artifícios deu o charme supremo, a sofisticação necessária para o momento.
Dez segundos de perfeição. Dez eternos segundos que quando acabaram cobraram seu preço através
daquela situação fulminante de queda-livre.

– Sujou! Sujou!
– Fuja locôôoooo!!!!

Sem nenhum plano de fuga corremos feito uns desesperados. Passamos no ponto combinado e Sergio
estava lá com meninos e com um sorriso congelado no rosto.
– Foi massa, foi de matar a pau.
– Bora, véio! Boraaa! Sujou!
– Sujou o que?
– Fugimos todos juntos!
– Foda-se.
– Bora, cara, bora!

Não teve jeito, por mais que ele tivesse razão nosso pânico era maior, corremos todos, até os meninos,
coitados. No caminho Fábio teve um acesso de loucura e quebrou um daqueles painéis de propaganda dos
pontos de ônibus. Corremos ainda mais, os meninos riam que se mijavam, quase não conseguiam correr,
tínhamos muitas vezes que puxá-los pelo braço.
Não sei quanto, mas corremos acho que uns três quilômetros. Quando paramos num posto de gasolina
pra descançar, tomar uma bera e apresentar um rango pros piazinhos nào converdamos nada, apenas ríamos.
Dez segundos pra marcar uma vida inteira e na madrugada:
Uma fogueira.

Fonte: Manual da Delinquência Juvenil Vol.01

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