O garoto que mancava

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por: Rob Gordon

Quando eu era moleque, passava a maior parte do tempo jogando bola na rua.

Alguns jogos eram menores, apenas eu e meus amigos. Mas, às vezes o bairro era palco de alguns clássicos. Eram jogos que reuniam meu time contra a turma de outra rua e que pediam cenários mais grandiosos. Assim, aconteciam no mais próximo que tínhamos do padrão FIFA: o estacionamento de um supermercado, muito maior e com direito, até mesmo, a uma mureta, usada como arquibancada por quem passava ali.

Ganhamos muito, perdemos muito também. Até hoje, me lembro de muita coisa desta época. Dribles, gols, brigas… E do garoto que mancava.

O garoto que mancava jogava com a gente. Na verdade, ele não mancava. Andava e corria normalmente, sem mancar… Até perceber que algumas pessoas estavam na mureta assistindo ao jogo. Aí, na primeira dividida, dava um grito de dor e passava o resto do jogo mancando. Ou, melhor, fingindo que estava mancando.

Um dia eu o questionei sobre isso. Ele mentia no grito de dor, mas foi sincero na resposta.

—  Eu manco para o jogo parecer que está mais difícil para mim.

—  Oi?

—  Todo mundo vai reparar que eu meu esforcei, porque estava jogando machucado. Tanto faz se vamos ganhar ou perder. As pessoas vão ver que eu joguei machucado, e serei um herói de qualquer maneira.

Concluí que ele era um idiota e nunca mais toquei no assunto.

Mas, com o passar dos anos, comecei a perceber que existe mais gente fingindo que manca do que eu teria imaginado quando jogava bola no estacionamento do supermercado. Vi isso no colégio, depois na faculdade.

Na vida profissional, mesma coisa. Se você trabalha numa empresa grande, basta olhar ao redor de vez em quando e, com um pouco de sorte, verá uma pessoa “mancando” pelo escritório. É o sujeito que está sempre reclamando do quanto tudo é difícil, que as piores coisas sempre caem na mesa dele, que o computador insiste em travar, que o prazo é curto, que a vida dele é mais complicada…

A pessoa não sabe fazer nada sem mostrar o quanto aquilo é difícil, somente para valorizar ao extremo o que ela está fazendo. Age como se estivesse reescrevendo a Jornada do Herói todos os dias, sempre na parte da Provação Suprema – e faz questão que todos percebam isso. Todo mundo no escritório está trabalhando; ela, derrotando adversidades e se superando de forma quase inumana.

Sempre existiu gente assim no mundo. E acho que sempre vai existir.

Entretanto, tenho reparado que, de uns tempos para cá, o ato de reclamar exageradamente parece ter saído do universo profissional e se expandiu. Agora, isso vale para qualquer assunto. O pensamento de que uma conquista só tem valor se ela foi difícil (caso contrário ela é quase nula) parece não valer mais somente para o mundo profissional.

Houve uma inversão de valores: se dá muito mais importância à dificuldade em realizar algo do que à realização em si.

Não sei quem começou com este raciocínio, mas esta lógica é perigosa. Voltando ao mundo do futebol, é o mesmo que dizer que uma taça conquistada nos pênaltis tem mais valor que uma taça recebida depois de uma goleada de 5 x 0.

Hoje, não basta fazer bem feito. É preciso fazer com sangue, suor e lágrimas. E, claro, alardear esta dificuldade aos quatro ventos.

Fonte: http://papodehomem.com.br/

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